
O 20 de novembro é um dia de memória, de luta e de afirmação política. É o dia que lembra a resistência histórica de Zumbi e Dandara dos Palmares, que enfrentaram a escravidão com coragem, organização e projeto coletivo de liberdade. É também o dia que reconhece os novos Zumbis e Dandaras, que seguem enfrentando desigualdades, preconceitos e injustiças todos os dias, dentro e fora do mundo do trabalho, e que não abandonam a luta.
A presença negra, muitas vezes diluída nas estatísticas oficiais, é parte central da vida de São Bernardo, muito mais do que os números sugerem. Quem trabalha na saúde pública, na educação, na assistência social e em todos os espaços onde a classe trabalhadora vive e trabalha sabe que a cidade real é diversa, vibrante e marcada pela força histórica da população negra.
Os dados do Censo 2022 indicam a seguinte autodeclaração racial em São Bernardo do Campo:
Branca: 477.984 pessoas
Preta: 58.608 pessoas
Parda: 261.363 pessoas
Amarela: 11.702 pessoas
Indígena: 1.043 pessoas
Essa fotografia oficial não coincide com o que se vê nos territórios da cidade. A distância entre o que aparece nos números e o que aparece na vida real não é obra do acaso. É resultado de um processo histórico que atravessou séculos, sustentado por estratégias contínuas de apagamento da população negra.
Um apagamento que não foi apenas simbólico, mas político e violento: perseguição a terreiros e tradições de matriz africana, encarceramento em massa, violência letal que atinge de forma desproporcional corpos negros e políticas que, ao longo da história, tentaram silenciar identidades, culturas e pertencimentos.
Esse conjunto de violências estruturais moldou a forma como muitas pessoas se percebem racialmente e ajuda a explicar por que os números do Censo não expressam a presença real da população negra na cidade.
Ao mesmo tempo, é fundamental afirmar o que a própria história comprova: não existe identidade brasileira sem a luta, o trabalho, a cultura e a presença histórica da população negra. A contribuição negra é fundadora da vida nacional e está na base do que o Brasil é, culturalmente, economicamente e socialmente.
Quando a população negra fica invisível nos números, a cidade também fica incompleta. E toda política construída sobre um retrato incompleto falha em proteger quem trabalha, quem cuida e quem faz São Bernardo acontecer. A invisibilidade de uns fragiliza a todos.
E é justamente essa invisibilidade que também se expressa nas escolhas políticas de quem governa. Durante a gestão municipal de 2017 a 2024, uma série de ações da prefeitura foi denunciada pelo Coletivo Racial do SINDSERV-SBC, por movimentos sociais do ABC, pelo Fórum antirracista de SBC, ao Ministério Público e ao Fórum Permanente de Pessoas Afrodescendentes da ONU como práticas de racismo institucional. As denúncias envolvem episódios que escancararam esse processo, como a promoção de festas de tradições europeias no 20 de novembro e o despejo de ONGs, coletivos e espaços dedicados à cultura negra no município.
Por isso, o 20 de novembro não é apenas uma data simbólica. É uma convocação para que a classe trabalhadora enfrente o racismo como aquilo que ele é: um sistema estruturante que organiza a desigualdade no Brasil, distribui de forma desigual as oportunidades, precariza trajetórias e limita direitos. O racismo estrutural não age por episódios isolados. Ele atravessa o mercado de trabalho, o acesso à cidade, a renda, a educação, a mobilidade e a vida cotidiana, definindo quem tem mais chances e quem carrega os maiores obstáculos.
A luta antirracista, portanto, não é uma pauta separada da luta sindical. Ela é parte central da defesa do salário digno, da carreira, das condições de trabalho, do serviço público de qualidade e de políticas que respeitem a diversidade real dos territórios. Enfrentar o racismo fortalece toda a classe trabalhadora, porque desmonta um mecanismo que mantém desigualdades e injustiças que atingem a todos.
Quando a desigualdade racial diminui, a cidade se torna mais justa. E quando a população negra se reconhece em sua plenitude, com sua potência transformadora e sua luta cotidiana pelo coletivo, a cidade inteira se fortalece: o planejamento avança, os serviços públicos passam a responder melhor às necessidades reais da população e os direitos se tornam mais reais.
Neste Dia da Consciência Negra convidamos toda a classe trabalhadora de São Bernardo do Campo a olhar para a cidade real, reconhecer a força da população negra que constrói este município e fortalecer a luta por igualdade racial. Honrar Zumbi e Dandara é lutar hoje por uma SBC mais justa, mais humana e mais comprometida com a vida de todos.

