
O Dia Internacional das Mulheres não nasceu como uma data comemorativa vazia. Sua origem está enraizada nas lutas operárias do início do século XX, nas greves por jornada digna, salário justo e direito à participação política. Foi a partir da mobilização de trabalhadoras, desde as operárias têxteis de Nova York até as mulheres russas que, em 1917, saíram às ruas, que o 8 de março se consolidou como símbolo internacional de resistência e transformação social.
Décadas depois, a Organização das Nações Unidas oficializou a data em 1975, reconhecendo que a desigualdade de gênero é um problema estrutural que exige respostas permanentes dos Estados e da sociedade. No Brasil, as conquistas foram importantes, do direito ao voto à Lei Maria da Penha e à tipificação do feminicídio. Ainda assim, os dados recentes mostram que a luta está longe de terminar.
O brutal assassinato de Cibelle Monteiro Alves, de apenas 22 anos, em São Bernardo do Campo, no exercício do seu trabalho e mesmo com medida protetiva em vigor, expõe de forma dolorosa as falhas da rede de proteção às mulheres. O caso não é isolado. Em 2025, o Grande ABC registrou 16 feminicídios, o maior número de sua série histórica. Por trás de cada estatística há vidas interrompidas, famílias devastadas e uma sociedade que precisa se perguntar por que ainda falhamos em proteger.
Vivemos, sem dúvida, um tempo de maior visibilidade das violências. Já em 1867, em O Idiota, Fiódor Dostoiévski observava que a ampla divulgação dos crimes poderia alterar a percepção social sobre sua frequência. O alerta é metodologicamente relevante. Contudo, no Brasil contemporâneo, esse argumento não pode ser mobilizado para relativizar a violência de gênero. Os dados empíricos são contundentes ao demonstrar que não se trata apenas de maior exposição midiática, mas da persistência, e em diversos contextos da elevação, de um problema estrutural profundamente enraizado em desigualdades históricas.
Os sintomas do nosso tempo também são evidentes. Relações cada vez mais efêmeras, baixa tolerância à frustração, insegurança material, ansiedade social difusa e fragilização de vínculos comunitários compõem um cenário de mal-estar coletivo. Esses elementos não explicam isoladamente a violência de gênero, mas ajudam a compreender o ambiente social tensionado em que ela se reproduz.
Pesquisa recente do ICL mostra que 53 por cento dos brasileiros consideram o feminismo necessário, embora parte significativa o veja como exagerado ou excessivamente politizado. Ao mesmo tempo, cresce a rejeição a termos percebidos como ideológicos. O dado revela um desafio estratégico para os movimentos sociais: ampliar o diálogo público sem diluir a centralidade do enfrentamento às desigualdades de gênero.
É nesse terreno que emergem as novas frentes de luta, que passam necessariamente pela responsabilização coletiva.
A realidade brasileira exige reconhecer que a violência de gênero não atinge todas as mulheres da mesma forma. Como alertava Lélia Gonzalez, a mulher negra enfrenta uma tripla discriminação, de raça, de classe e de sexo, o que a coloca em posição ainda mais vulnerável nas estatísticas de violência, no mercado de trabalho e no acesso às políticas públicas. Ignorar essa dimensão produz diagnósticos incompletos e respostas insuficientes.
A violência contra as mulheres não é episódica. Ela se sustenta em uma engrenagem histórica que articula patriarcado, machismo institucional e a persistência de uma mentalidade herdada da colonialidade do poder. Ao longo de séculos, naturalizou-se a ideia de que às mulheres caberia obedecer, servir e acomodar desejos alheios. Essa lógica ainda atravessa práticas sociais, decisões institucionais e relações cotidianas.
Quando essa estrutura não é enfrentada de forma consciente, ela se reproduz nas escolas, nos locais de trabalho, nos serviços públicos e, muitas vezes, dentro das próprias políticas que deveriam proteger. Por isso, enfrentar o feminicídio e as múltiplas formas de violência de gênero exige mais do que medidas emergenciais. Exige desmontar os fundamentos culturais e institucionais que ainda legitimam a desigualdade.
Trazer essa perspectiva é fundamental para que o 8 de março não seja tratado de forma abstrata. No Brasil real, marcado pelo racismo estrutural e por profundas desigualdades sociais, a defesa dos direitos das mulheres passa necessariamente pelo enfrentamento simultâneo do machismo, do racismo e da exploração econômica.
Nesse ponto, outra lição histórica permanece atual. Em Burkina Faso, na década de 1980, Thomas Sankara afirmou que “a revolução e a libertação da mulher caminham juntas”. A advertência é clara. Não haverá transformação social verdadeira se os homens não se implicarem ativamente na mudança.
O enfrentamento à violência contra as mulheres não pode ser tarefa exclusiva das mulheres. A participação consciente dos homens é condição indispensável para romper padrões de masculinidade baseados no controle, no ciúme possessivo e na naturalização da violência. Isso exige mais do que discursos ocasionais. Exige processo educativo permanente.
A escola ocupa lugar estratégico nessa disputa civilizatória, mas não pode estar sozinha. Reeducar para a convivência democrática entre homens e mulheres precisa deixar de ser tema periférico e assumir centralidade curricular. Ao mesmo tempo, deve se tornar compromisso das famílias, dos serviços públicos, dos locais de trabalho e dos espaços comunitários.
Não se trata de ação episódica. Trata-se de um processo formativo contínuo, capaz de constituir, desde cedo, sujeitos que aprendam a lidar com frustrações, perdas, limites e diferenças sem recorrer à violência.
A prevenção começa antes da tragédia. Começa na educação emocional, na construção do respeito mútuo e na ruptura com a ideia, ainda presente, de que relações afetivas implicam posse sobre o corpo e a vida das mulheres.
Neste 8 de março, mais do que homenagens protocolares, o que se impõe é compromisso político concreto.
Compromisso do Estado em fortalecer a rede de proteção, garantir Delegacias da Mulher com funcionamento ininterrupto, ampliar casas-abrigo e monitorar agressores.
Compromisso das redes de ensino em tratar a igualdade de gênero, o respeito e a educação emocional como dimensões estruturantes do currículo.
Compromisso dos homens em assumir seu papel na transformação cultural necessária.
Compromisso da sociedade em não naturalizar a barbárie.
A luta das mulheres nunca foi apenas das mulheres. É uma luta civilizatória, democrática e profundamente coletiva.
E, diante dos sinais do nosso tempo, ela segue mais urgente do que nunca.
Juntos e juntas somos mais fortes! Só a luta justa e coletiva muda a vida.

