
Coca-Cola, hambúrguer e compras no Bem + Barato: é essa a educação para nossas crianças?
No dia 20 de março, a Prefeitura de São Bernardo do Campo pagou cerca de R$ 26 milhões por kits do material denominado Banco+, voltado ao conteúdo de educação financeira, destinados aos alunos do fundamental 1 atendidos pela rede municipal de ensino, vinculados ao empenho nº 1408/2025.
O empenho foi realizado em agosto de 2025, já na atual gestão, e foi liquidado e efetivamente pago em 20 de março de 2026.
Quem autorizou essa compra?
Quem analisou seu conteúdo pedagógico?
Essa análise considerou as práticas já desenvolvidas há anos na rede, que são parte do currículo?
Enquanto servidores e servidoras enfrentam o parcelamento de progressões e professores lidam com sobrecarga e adoecimento, o governo faz uma escolha: destinar R$ 26 milhões a materiais padronizados.
Há dinheiro.
Falta prioridade.
O problema não é apenas o valor.
É a decisão sobre onde investir.
O material é conceitualmente muito questionável: reduz o consumo a escolhas simples e aborda a ideia de compra sustentável de forma equivocada, utilizando dinheiro fictício, recurso barato para a compra e historicamente utilizado na rede, além de cheques, instrumento cada vez mais em desuso, e cartões de crédito fictícios físicos como estratégia pedagógica.
Há ainda a presença, no próprio material, de simulacros de panfletos de promoção de supermercados. Na rede municipal, ao contrário, o trabalho pedagógico historicamente se constrói com o uso de gêneros reais, como panfletos reais, com preços reais, considerando os contextos e territórios em que as escolas estão inseridas.
Além disso, o material adquirido mobiliza referências de consumo cotidiano extremamente questionáveis, sem problematização, reduzindo a discussão ao descarte da embalagem após a compra, de forma descontextualizada e superficial.
Na prática, antecipa o uso do crédito e ignora a realidade das famílias.
Em muitas casas, o crédito não é escolha — é necessidade.
Usa-se o cartão para garantir o básico, e a dívida se acumula.
Usa-se o cartão para garantir o básico, e a dívida se acumula.
Essa realidade não aparece no material.
Além disso, os livros do PNLD já contemplam conteúdos relacionados ao sistema monetário e às práticas do cotidiano dos alunos, de forma articulada ao currículo e às práticas pedagógicas da rede. Soma-se a isso o material do estado, como o Currículo em Ação e o livro do estudante. Ou seja, o que não falta na rede é suporte didático para o desenvolvimento dessas aprendizagens.
A rede não precisava desse material.
São Bernardo construiu sua educação com base na autonomia docente, na realidade dos territórios e no trabalho coletivo das escolas.
O que está em jogo não é apenas um kit.
É a escolha de um projeto de educação.
Entre padronização ou autonomia.
Entre gasto em material inócuo ou valorização profissional.
Valorizar a educação pública é valorizar quem a constrói todos os dias:
os servidores e as servidoras.
Juntas e juntos somos mais fortes! Só a luta justa e coletiva muda a vida!

