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Quando o índice não mede a educação: o discurso da pseudo melhora distorce a análise ao usar seus próprios indicadores

Queda no número de escolas, alunos e recursos contemplados pelo Prêmio Excelência Educacional, mesmo com mudança de critérios, revela desigualdades territoriais e demonstra os limites de uma política que reduz a educação a resultados de prova

Os resultados não surpreendem. O desmonte da educação em São Bernardo vem de anos. E não adianta dizer nas mídias que melhorou: os dados mostram o contrário.

Quando a gestão anterior assumiu a prefeitura, a remuneração dos professores era cerca de 57% superior ao piso nacional do magistério. Ao final do período, esse valor caiu até empatar com o piso. Em 2026, a situação piora: o município passou a pagar abaixo do piso desde janeiro.

Em 2020, foi aprovada a Lei nº 6.948/2020, que suspendeu duas progressões da carreira do magistério sob a justificativa da pandemia. Mesmo após o período crítico, a lei não foi revogada.

O resultado foi imediato. Profissionais com maior qualificação deixaram a rede e buscaram municípios com melhores condições de carreira. Isso gerou uma lacuna na formação dentro das escolas e aumentou a rotatividade e o adoecimento dos trabalhadores da educação.

Entre 2024 e 2025, mesmo considerando os indicadores do próprio governo, os dados mostram que a educação em São Bernardo do Campo não melhorou. Ao contrário, piorou. E não adianta publicizar nas mídias que melhorou: os dados reais desmentem.

Ao comparar diretamente os resultados, o cenário é de piora. Os dados são públicos e estão disponíveis no portal da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Alunos em escolas com índice adequado segundo o “Prêmio”

10.621 → 6.289 (queda de 4.332 alunos, -40,8%)

Escolas com índice

17 → 14 (queda de 3 escolas, -17,6%)

Recursos recebidos pelo “Prêmio”

R$ 1.062.100,00 → R$ 628.900,00 (queda de R$ 433.200,00, -40,8%)

Das 74 escolas comparáveis, 47 tiveram piora no índice. Isso representa 63,5% da rede. Entre as três escolas premiadas nos dois ciclos, apenas uma melhorou, e ainda assim de forma mínima, 0,56%.

Ou seja, mesmo com os critérios usados pelo próprio governo, a melhora divulgada não se confirma.

Não será surpresa se tentarem explicar isso pela mudança de metodologia.

Em 2024-2025, o critério era atingir a meta da escola.

Em 2025-2026, passou a valer um índice de corte de 7,10.

Mas, se esse mesmo critério fosse aplicado em 2024, o cenário seria outro: 23 escolas teriam recebido o prêmio, e não 17. Um número, inclusive, maior que as 14 escolas de 2025.

Isso mostra que a piora é real.

Apesar disso, o discurso oficial fala em “marco histórico”. Mas os dados mostram outra realidade.

O problema vai além dos números. Trata-se de uma política que transforma indicador em sinônimo de qualidade e ignora as condições reais das escolas. E essa lógica é, em grande medida, induzida pelo VAAR.

A educação não pode ser analisada sem considerar o território. As escolas com melhores resultados estão, em geral, em regiões mais estruturadas, com maior escolaridade das famílias e mais estabilidade social. Nessas condições, os alunos já chegam com mais acesso a oportunidades culturais e educacionais.

Isso não diminui o trabalho pedagógico dessas escolas. Mostra que os pontos de partida são diferentes e que a rede precisa de políticas mais justas.

Além disso, práticas como a organização de turmas por desempenho e a exclusão de parte dos estudantes das avaliações, como na lógica do 80/20, distorcem os resultados e comprometem a leitura da realidade educacional, ao selecionar quem conta e quem não conta para o índice.

Também é importante dizer: esses resultados não podem ser usados para responsabilizar professores. São recortes pontuais. Não representam a aprendizagem real construída no dia a dia.

Educação não é treino para prova. É processo.

Políticas de bonificação não valorizam a educação. Ao contrário, fragmentam o ensino e reforçam desigualdades.

A valorização passa por salário, carreira, condições de trabalho e formação continuada.

Hoje, São Bernardo não cumpre o piso salarial do magistério, definido pela Lei nº 11.738/2008, e essa situação deve continuar ao longo de 2026.

O piso não se confunde com plano de carreira, como reafirma a Lei nº 14.817/2024. O piso é o valor mínimo de entrada e deve ser garantido.

Além disso, o reajuste não recompõe a inflação. O INPC acumulado até março de 2026 foi de 3,36%. Embora o salário final alcance um reajuste nominal de 4,41%, esse valor não é recebido ao longo de todo o ano. Como o reajuste foi parcelado, o ganho médio efetivamente recebido mês a mês é de apenas 3,003%, ou seja, inferior à inflação do período.

Na prática, os servidores seguem perdendo poder de compra. O índice anunciado não corresponde ao que chega aos vencimentos.

Educação não pode ser reduzida a números. Ainda assim, mesmo nesses números, o que aparece não confirma o discurso oficial.

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