
Profissionais da Educação, alerta!
São Bernardo já foi referência em educação. Não por números em planilhas, mas pelo trabalho vivo das escolas, pela formação dos profissionais e pelas práticas reconhecidas até fora do país. Essa trajetória foi sendo corroída ao longo dos últimos nove anos.
Hoje, o quadro é de desmonte:
● servidores desvalorizados,
● plano de carreira enfraquecido,
● terceirização crescente,
● materiais pedagógicos cuja contribuição para a aprendizagem nunca foi demonstrada.
Esse processo corrói a identidade da rede e enfraquece a potência formadora da escola pública.
A lógica da bonificação só agrava a crise. Pesquisas sérias mostram que ela não melhora a educação. Ao contrário: estimula competição, pressiona equipes, gera injustiças e amplia desigualdades. No Estado de São Paulo, os exemplos são claros. Metas e plataformas não trouxeram avanços reais, enquanto gestores são punidos e ameaçados por objetivos inalcançáveis. É o roteiro da privatização: primeiro se desgasta, depois se terceiriza e, por fim, entrega-se às empresas que buscam lucro, não educação.
E é preciso lembrar: educação é processo. Ela começa nas relações docentes estabelecidas desde a creche e se estende por toda a vida acadêmica do aluno. Bonificar apenas profissionais do 2º e do 5º ano, que atuam diretamente com as crianças em momentos específicos, é desconsiderar o trabalho de todos os docentes que participam da formação integral do estudante. A aprendizagem é construída coletivamente, dia após dia, e não pode ser reduzida a recortes isolados.
O mais grave é que não faltam recursos. O problema está nas escolhas de onde gastar. As opções feitas pela administração comprometem a valorização dos profissionais, a melhoria da qualidade do ensino e o fortalecimento da rede. Há margem para investir em estrutura, equipes e plano de carreira, mas falta decisão política para priorizar a educação pública.
Enquanto sobra recurso, o cotidiano das escolas revela distorções ainda mais graves. Uma cena que circulou nas redes sociais associadas à Secretaria de Educação mostra uma criança segurando um cartaz: “Vende-se rifa para comprar monjauro para a diretora”. A piada sem graça expõe um adulto e uma criança ao ridículo e banaliza a relação educativa. Ao virar o cartaz, a mensagem verdadeira aparece: “Não faltem à prova”.
Não é um caso isolado. É sintoma. Mostra como a pressão por desempenho em uma única prova está produzindo práticas que jamais deveriam existir. Há também vídeos de alunos recebendo bolas de papel com bilhetes para comparecer à prova. São cenas que geram desconforto e indignação. São práticas sem sentido pedagógico, sinais de que algo está profundamente errado.
Em uma cidade onde há crianças em insegurança alimentar e múltiplas vulnerabilidades sociais, transformar a escola em palco de campanhas vazias para uma prova padronizada é negar a essência da educação pública.
Avaliação e ciência
A avaliação é constante e se constrói no cotidiano da escola: professores e alunos dialogam, ajustam rotas, reorganizam atividades e replanejam estratégias conforme a realidade vivida. Avaliar é acompanhar, não fiscalizar; é compreender processos, não punir resultados. Reduzir tudo a uma prova é transformar a educação em mecanismo de controle, e não de emancipação. A imposição de modelos padronizados, sustentados por estatísticas que incluem uns e excluem outros, já demonstrou em diversas experiências internacionais que não fortalece a educação, mas a fragiliza. Quando a política pública se rende à lógica da prova e da meritocracia, abdica de formar cidadãos críticos e solidários, e passa a produzir apenas números – números que não refletem a vida, nem constroem futuro.
Apesar disso, discursos irresponsáveis ainda afirmam que “90% dos problemas da cidade se resolvem pela política educacional”. Além de tecnicamente falsos, são ofensivos ao conhecimento acumulado pela educação, pela sociologia, pela psicologia do desenvolvimento e pelas políticas públicas. Não é ideologia. É ciência. Ciência de verdade. Não essa pseudociência travestida de “evidências” que transforma educação em planilha.
Essa distorção atinge também a compreensão da própria função do conhecimento. A ciência não existe para formar empreendedores preocupados em mercantilizar saberes coletivos. Ela existe para produzir conhecimento socialmente relevante e tecnologia voltada ao bem comum. Esse é o sentido maior da educação, da universidade e da sociedade.
Essa lógica alimenta uma mentalidade marcada pela competição, pelos rankings e pela busca individual de sucesso. Crianças aprendem desde cedo que conhecimento serve para competir, e não para transformar. Isso destrói a base da vida coletiva.
Quando a meritocracia passa a ser vista como sinônimo de eficiência, o resultado é o esvaziamento do sentido público da escola. Ela deixa de ser espaço de comunidade, diálogo e pensamento crítico, e vira apenas preparação para uma corrida injusta. Aprender não é decorar e responder. Aprender é tempo, silêncio, vínculo, mediação, errar, refazer, pensar. Ensinar a decodificar palavras não forma leitores. Leitores se formam com cultura, história, arte, mundo e reflexão.
Esperança e reconstrução
Para completar o cenário, uma conta associada à Secretaria de Educação publicou: “a diferença entre esperança e ilusão é pouca”. Isso é falso. Esperançar é agir, transformar, caminhar junto. Ilusão é tratar educação como planilha. Ilusão é acreditar que números substituem gente, diálogo e coragem. Ilusão é essa “política de evidências” que desconsidera o território e a ciência da educação.
Reconstruir a rede exige escolhas. E a escolha certa é clara: valorizar profissionais, garantir plano de carreira compatível, aumento real, fortalecer as escolas, investir no território e recuperar o sentido público da educação.
Não é ideologia. É conhecimento. É ciência. É defesa das crianças, respeito ao território, valorização dos servidores e servidoras e responsabilidade real pelo futuro de São Bernardo do Campo.

