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Crise climática, serviços públicos e trabalho seguro: por que essa precisa ser uma pauta permanente do movimento sindical

“Não existe população protegida sem trabalhadores protegidos. E não existem trabalhadores protegidos sem serviços públicos fortes.”

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 deixaram de ser apenas uma tragédia regional para se tornarem um marco nacional. As imagens da destruição correram o país, mas por trás delas havia outra realidade menos visível: milhares de trabalhadoras e trabalhadores dos serviços públicos precisaram responder à maior calamidade climática da história recente do Brasil enquanto também viviam seus próprios dramas. Muitos perderam suas casas, tiveram familiares atingidos, ficaram isolados ou sem condições de trabalho e, ainda assim, permaneceram na linha de frente do atendimento à população.

Foi essa reflexão que norteou o Seminário “Crise Climática, Serviços Públicos e Trabalho Seguro”, promovido pela Internacional de Serviços Públicos (ISP Brasil), em Porto Alegre. O encontro reuniu representantes sindicais, especialistas e servidores públicos para discutir uma questão que já não pode mais ser tratada como exceção: a emergência climática transformou profundamente o mundo do trabalho.

Durante muito tempo, a crise climática foi vista principalmente como um tema ambiental. Hoje, ela precisa ser compreendida também como uma questão de saúde pública, proteção social, planejamento urbano, infraestrutura e relações de trabalho. Seus efeitos já são sentidos diariamente: ondas de calor, enchentes, secas prolongadas, deslizamentos, queimadas e eventos extremos alteram a organização das cidades e impactam diretamente quem garante o funcionamento do Estado.

São profissionais da saúde, assistência social, educação, defesa civil, segurança pública, saneamento, transporte e administração pública que permanecem trabalhando quando grande parte da população busca abrigo. São eles que atendem os desabrigados, restabelecem serviços essenciais, organizam abrigos, distribuem alimentos, recuperam escolas, hospitais e equipamentos públicos. Em outras palavras, são esses trabalhadores que tornam possível a resposta do Estado às emergências.

Entretanto, o seminário evidenciou uma contradição preocupante: aqueles responsáveis por proteger a sociedade continuam sendo pouco protegidos. Jornadas exaustivas, exposição a riscos físicos e biológicos, falta de equipamentos adequados, ausência de protocolos específicos para situações extremas e impactos severos sobre a saúde mental passaram a integrar a rotina de milhares de servidores.

Os dados apresentados reforçam essa realidade. O aumento expressivo das notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho demonstra que os efeitos da crise climática não terminam quando a água baixa. Permanecem no esgotamento emocional, na ansiedade, no estresse pós-traumático, no luto pelas perdas humanas e materiais e na responsabilidade permanente de reconstruir territórios devastados.

Talvez uma das reflexões mais importantes do encontro tenha sido reconhecer que, em muitos casos, o trabalhador do serviço público ocupa simultaneamente duas posições: é agente da resposta institucional e também vítima do desastre. Essa dupla condição exige uma mudança profunda na forma como governos e instituições planejam a gestão de riscos.

Não é possível continuar tratando eventos extremos como acontecimentos imprevisíveis. Eles passaram a fazer parte da realidade brasileira. A sucessão de enchentes, secas e ondas de calor demonstra que o desafio deixou de ser responder ao desastre e passou a ser preparar permanentemente o Estado para conviver com ele.

Isso significa investir em planejamento territorial, adaptação da infraestrutura pública, sistemas de alerta, planos de contingência, protocolos intersetoriais e formação continuada das equipes. Significa também reconhecer que a saúde física e mental dos trabalhadores deve ser considerada elemento estratégico da política climática.

Nesse contexto, ganha enorme relevância o conceito de Transição Justa, amplamente debatido durante o seminário. Não se trata apenas de reduzir emissões ou adaptar cidades. Trata-se de construir respostas que garantam trabalho decente, proteção social, diálogo entre governo e trabalhadores, participação sindical e redução das desigualdades. A transição para uma economia mais resiliente não pode acontecer às custas da precarização do trabalho.

O movimento sindical também é chamado a assumir um novo protagonismo. A experiência vivida no Rio Grande do Sul mostrou que sindicatos não atuam apenas na defesa de salários e direitos tradicionais. Organizaram redes de solidariedade, acolheram trabalhadores atingidos, participaram da reconstrução de comunidades e passaram a disputar políticas públicas voltadas à prevenção e à adaptação climática.

Esse talvez seja um dos maiores aprendizados deixados pelo encontro: a pauta climática precisa integrar definitivamente a negociação coletiva. Questões como protocolos de segurança, condições de trabalho em eventos extremos, proteção da saúde mental, reorganização das jornadas, equipamentos adequados, infraestrutura resiliente e planos permanentes de contingência devem fazer parte da agenda sindical da mesma forma que salários, carreira e condições de trabalho sempre fizeram.

A crise climática já redefiniu o papel dos serviços públicos. Agora, cabe às instituições públicas, aos governos e às organizações sindicais redefinirem também suas formas de atuação.

O Brasil não precisa apenas reconstruir o que foi destruído pelas enchentes. Precisa construir um Estado mais preparado, cidades mais resilientes e relações de trabalho capazes de proteger aqueles que sustentam a resposta pública diante das emergências.

Porque, no fim, a maior lição deixada pelo Rio Grande do Sul é simples: não existe adaptação climática sem serviços públicos fortes. E não existem serviços públicos fortes sem trabalhadores protegidos, valorizados e ouvidos. É nessa direção que a emergência climática precisa deixar de ser tratada como um tema periférico para ocupar o centro do debate sobre o futuro do trabalho, da democracia e das políticas públicas no Brasil.

A partir das reflexões e experiências compartilhadas durante o seminário, o Sindserv SBC pretende dar um passo além do diagnóstico geral e aproximar essa discussão da realidade dos servidores municipais. Para isso, desenvolverá um mapeamento das vulnerabilidades climáticas no trabalho, por meio de um levantamento junto às diferentes categorias do serviço público.

O objetivo é identificar como os eventos climáticos já impactam as condições de trabalho, a saúde física e mental, a organização das jornadas, a infraestrutura dos locais de trabalho e a existência (ou ausência) de protocolos de proteção. Esse diagnóstico permitirá construir um Índice de Vulnerabilidade Climática do Trabalho no município, oferecendo subsídios técnicos para fortalecer a negociação coletiva, orientar políticas de prevenção e adaptação e garantir que a proteção dos trabalhadores ocupe um lugar central nas respostas à crise climática.

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